O DIABO NO CAMPANÁRIO E O HORÁRIO DE VERÃO

O burgo holandês de Vondervotteimittiss foi  o mais belo lugar do mundo. Cidade simples e pacata tão antiga que os seus moradores usavam velas e relógios de corda. Os relógios sempre ficavam desatualizados pela pouca quantidade de corda que se dava, por isso o pequeno povoado acertava seus horários  através do campanário situado na casa do Conselho Municipal.

As escolas, restaurantes, bares e até  as rotinas domesticas na cidade dependiam de uma hora específica para a realização de suas tarefas. Um certo dia  todos aguardavam a chegada do meio-dia para poder confirmar a hora certa através das badaladas dos sinos, mas uma densa nuvem negra cobriu  o campanário.Alguns moradores viram um vulto misterioso e teve pessoas que juravam ter visto o diabo. Na verdade era ele, mas os moradores estavam mais interessados em acertarem seus relógios.

Meio-dia…as baladas começaram e todos contavam atentamente.  Uma, duas três, quatro..doze e logo em seguida treze badalas. O diabo tinha adiantado uma hora e todos os moradores pensaram que já era uma hora da tarde.

O desespero foi total, pois os moradores perderam a noção do tempo. A professora que mal entregará as provas recolheu tudo, pois era o fim de mais um dia e todos levaram zero. A confeitaria da cidade perdeu todos os seus bolos, pois foram tirados fora do tempo. Um paciente morreu no hospital, pois a cirurgia deveria acontecer justamente na hora em que terminava o expediente do cirurgião.

No outro dia as coisas ficaram piores. As pessoas que levantaram de madrugada praticamente nem dormiam mais. Muitos ficavam com sono durante o dia todo, outros desenvolveram problemas cardíacos, pois o ritmo biológico do organismo tinha sido alterado. Teve pessoas que ficaram tão irritadas que acabaram se matando. Tudo isso além das brigas diárias no trânsito  devido a surtos psicóticos que resultavam em mais mortes. Nesse momento, o diabo e os noticiários da TV, especialmente uma emissora controlada pelo bispo da cidade,  recebiam alegremente os novos visitantes.

Mas o que era desespero para alguns se transformou em lucro para outros. A industria farmacêutica lucrou horrores com a venda de calmantes, relaxantes musculares e remédios para doenças cardíacas. Outros faziam filas  para uma consulta com psicólogos. Até o prefeito ficou satisfeito, pois quando implantava uma nova lei ninguém o questionava por estar praticamente dormindo em pé.

Com medo da população se rebelar, o prefeito se reuniu com os ricos e poderosos da cidade para criar um decreto universal… Camaradas! Nós podemos continuar nossas rotinas como antes, apenas o povo deve obedecer o novo horário, pois ele se tornou lucrativo para nós.

Hoje proponho criar uma desculpa para o povo. Em nome do bem-comum da humanidade e para que todos tenham velas suficientes devido a falta de matéria prima no mercado será criado o horário de verão, disse o prefeito. Os jornais cuidarão para apresentarem estatísticas falsas.

Mas prefeito! E se eles não acreditarem? Disse um dos intelectuais da reunião.

Chamem o padre e o pastor da cidade. Ambos adoram se envolver na política e no direito da cidadania. Vamos falar para eles que tudo isso é em nome do bem-comum para economizar velas  e o povo aceitará. Vamos transformar o diabo em deus. Isso prefeito! Parabéns! Gritavam todos eufóricos com a vitória.

E assim, um julgo desleal foi colocado sobre o povo. Durante as três primeiras estações do ano todos ficavam muito cansados, mas quando chegavam os primeiros dias do verão todos sentiam mais ânimo e mais disposição. Isso irritava o prefeito que em menos de 10 dias decretava o novo horário de verão. E assim, todos viveram sedentários para sempre.

Texto inspirado na obra de Edgar Allan Poe – O diabo e o campanário